sexta-feira, 19 de junho de 2009

Insucesso na Definição de Sucesso

Mauro estava muito aflito. Era gerente de uma empresa de medicamentos e tinha um funcionário muito bom. Cristiano realmente conseguia resolver os problemas do dia-a-dia de forma perfeita. Era cuidadoso, atencioso e bom colega.

O problema é que toda vez que Mauro puxava Cristiano para liderança de time ou mesmo para tarefas de abrangência maior, que exigiam coordenação em diversos passos de pessoas e fases, tudo caía por água abaixo, com resultados medíocres e às vezes devastadores.

Na última reunião que teve com Cristiano foi enfático: ia lhe dar mais uma chance em um projeto que estava por vir. Ele iria ser o líder e queria que finalmente demonstrasse que conseguia suprir as expectativas de Mauro. Era a terceira e última chance que Mauro daria a Cristiano. Ele estava tempo demais naquela posição.

Mas era isso mesmo que incomodava tanto Mauro. Estava em um beco sem saída. Tinha que fazer aquela última tentativa dar certo. Para isso, procurou o Dr. Myagui, um conhecido coacher empresarial que era famoso por seus resultados. Pediu à sua empresa contratar duas sessões com Dr. Myagui. Infelizmente, devido a crise, sua empresa só lhe pagou uma sessão. Teria que aproveitar ao máximo.

- Ele está pronto para recebê-lo, anunciou a secretária, uma senhora muito simpática.

Abriu a porta e lá estava ele. Sentado em uma poltrona, com um cachimbo na boca, fez um sinal para que Mauro entrasse e se sentasse no sofá à sua frente.

- É um prazer conhecê-lo, Dr. Myagui. Ouvi falar muito a seu respeito.
- Que bom. Espero que esteja à altura de minha reputação, disse Myagui, sorrindo.

Myagui era um senhor de uns 60 anos, muito simpático. Seu semblante era calmo, como se fosse inabalável, com uma confiança impérvia. Depois de uma rápida apresentação, Mauro começou a falar do seu problema com Cristiano, e que não sabia o que fazer para melhorar a performance dele.

- E isso que me preocupa Dr. Myagui. Não quero ter que demiti-lo, mas estou ficando sem saída. Nas duas última vezes que lhe dei oportunidade, ele me desapontou e em um dos projetos fez com que atrasássemos a entrega em três semanas.
- Hmmm. Deixe-me ver se entendi. Em primeiro lugar, você está me dizendo que se não tivesse forçado Cristiano nessas situações ele estaria desempenhando muito bem.
- Sim senhor. Respondeu Mauro pensativo.
- E mesmo considerando-o um bom funcionário você está pensando em demiti-lo?
- Bemm. Bom quando faz o que é pago para fazer, o trabalho do dia-a-dia. Não quando é desafiado para liderar, para ir para o próximo nível, que sei que tem capacidade.
- Entendi. Deixe-me perguntar-lhe uma coisa. Quem tem mais sucesso? A pessoa "A", de origem humilde que continua na casa de barro dos seus pais com a mesma plantação de subsistência que seu avô tinha; a pessoa "B", de origem humilde também, mas que conseguiu fazer faculdade com muito esforço depois de trabalhar de noite como entregador de pizza e hoje é gerente de uma grande rede de supermercados em São Paulo; ou a pessoa "C", uma pessoa filho de empresários de classe média-alta que hoje é vice-presidente de operações de uma grande siderúrgica nacional?
- Parece-me o segundo, o de origem humilde.
- Pois é exatamente esse o problema que você está tendo com o Cristiano. Você está definindo o sucesso para ele. E isso, meu caro, é impossível. Não existe resposta para a pergunta acima. Talvez seja a pessoa "A", pois tudo o que ela deseja na vida é aquilo. E não há nada de errado nisso. Se isso deixa ele feliz - que assim seja!
- Mas sou gerente do Cristiano. Minha obrigação é desenvolvê-lo e fazê-lo crescer na empresa.
- Novamente você está tomando decisões que não são suas. A sua obrigação é tirar o máximo dos seus funcionários. Para isso, você tem que conhecer o máximo, que nunca é absoluto, mas totalmente temporal. Pode ser que Cristiano não esteja pronto, ou mesmo não queira nada mais do que faz hoje ainda - e não há nada de errado com isso. Talvez ele nem queira essa promoção ou esse aumento de salário e esteja feliz do jeito que está hoje. Você já perguntou isso para ele?
- Não, realmente não.
- Ouça a si mesmo, Mauro. Você começou essa sessão falando em demissão de um bom funcionário. Alguma coisa realmente está muito errada. E pode ser que o causador seja você. Se ele realmente é bom no que faz hoje, e você ainda precisa de alguém fazendo o que ele faz hoje, porque não abre o jogo com ele e diz que gosta muito do trabalho dele e que de modo algum quer que ele saia da empresa. Entretanto, se ele não quiser ir para o "próximo nível", o salário dele ficará o mesmo e você terá que contratar um novo líder, pois está precisando de um. E se for esse o caso, e se você não puder aumentar o time, dispense o Régis, aquele que está no mesmo cargo de Cristiano mas que produz muito menos que ele. Não parece mais lógico?
- Hããã, sim. Certamente. Não tinha olhado por esse ângulo.
- Que bom que olhamos juntos então. Odiaria ver esse Cristiano fora da empresa só porque você aposta demais nele!

Mauro saiu desolado, mas ciente do seu erro recorrento nos últimos 6 meses em relação ao Cristiano.

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Parece mentira, mas essa história é baseada em fatos reais, mas na história real, tamanha era a expectativa em relação ao "Cristiano da vida real", que ele foi demitido, pois não havia nenhum Dr. Myagui para aconselhar o gerente asno.

Dr. Zambol
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